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Uma conversa enriquecedora com Carla Gerulaitis

8 de mar

A presença da mulher no mercado de trabalho está cada dia mais forte. Hoje, elas ocupam cargos estratégicos, tomam decisões importantes e contribuem para o desenvolvimento das empresas e para a economia do país.

Engenheira mecânica há 26 anos, Carla K. Mauerberg Gerulaitis é exemplo de superação. Em um bate-papo descontraído, ela falou sobre seu início de carreira e a desconfiança da família, os desafios como mulher em uma área “dominada” pelos homens, a maternidade, como conheceu a SAE BRASIL e muito mais.

Carla Gerulaitis é graduada em engenharia pela FEI e em Gerenciamento de Projetos pela Poli – PECE, além de Especialização em Motores e Transmissões pelo Instituto Mauá de Tecnologia.

A profissional trabalhou com motores diesel por 25 anos, sendo 14 deles no desenvolvimento do produto na Ford caminhões. Hoje, atua na Estratégia de Powertrain da Volkswagen do Brasil.

Carla Gerulaitis é associada à SAE BRASIL desde 1995 e colaboradora ativa da entidade. Veja como foi esse bate-papo!

SAE BRASIL: Como surgiu o interesse pela engenharia mecânica, já que não é tão comum a escolha dessa profissão por mulheres?

Carla Gerulaitis: Quando criança, eu não brincava de boneca da mesma forma que a maioria das meninas brincava. Eu achava mais interessante desenhar uma casa para aquela boneca. Então, desenhava um quadrado grande no chão e ali eu ia dividindo os cômodos da casa de forma proporcional ao que eu imaginava: sala grande, um corredor que levava aos quartos…

Eu pegava caixas e montava os móveis, já o revestimento era feito com tecidos. Na minha cabeça eu estava fazendo o projeto da casa, e eu gostava muito disso. Outra coisa que eu fazia era desmontar e montar tudo que caía na minha mão: bonecas, carrinhos, o Gênius.

Meu pai era mecânico e piloto de provas na Ford. A manutenção do carro da nossa família era ele quem fazia. Eu ia até a garagem, ficava olhando todas aquelas peças desmontadas e perguntava para ele: O que é isso aqui? Para que serve? Eu já tinha muito interesse por tudo aquilo.

Certo dia fiquei muito triste, porque ele me botou para correr dali e falou: Sai daqui você vai se sujar. Isso não é coisa para menina! No outro dia eu já estava na Cummins e trabalhava na engenharia com análise de falhas.

Ele tinha um guincho e me ligou da Rodovia Dutra dizendo: Cacá (apelido de Carla), estou aqui com um caminhão com uma falha de tal jeito. Você acha que pode ser tal coisa? Eu respondi: Ah, isso eu não vou responder, porque não é coisa de menina. Ele ficou surpreso com a resposta e disse: Poxa, brincadeira! Você ainda se lembra disso?

Recentemente, estávamos conversando e ele disse: A gente tinha um pensamento diferente naquela época. Não faça isso, não profetize a vida dos seus filhos. Deixe-os fazer o que quiserem. Você me surpreendeu. Fez muito mais que eu, e hoje você é o meu orgulho. Errei, deveria ter te incentivado.

SB: Você acha que a fala dele, de que a mecânica não era coisa para menina, acabou te desafiando e serviu como estímulo para ser uma engenheira?

CG: Eu não escolhi a engenharia, ela já era minha opção desde sempre. Mesmo quando eu ainda não tinha consciência disso. Hoje, vejo isso muito claramente.

Sempre que tinha Open House na Ford meu pai me levava. Para mim foi o dia mais feliz do ano. Lembro do dia que entrei na parte de fundição da Ford e fiquei encantada com tudo aquilo. Eu não tinha na cabeça que queria trabalhar com carro, mas tudo aquilo me atraía muito.

Às vezes, meu pai estava com um carro de teste da fábrica e me levava para a escola. Era um Furgline Ford, carro americano, e eu me sentia a rainha. Isso tudo foi muito marcante. Me lembro da cor do carro, de como os instrumentos estavam instalados no painel, de todos os detalhes. Tudo me atraía.

Quando chegou o Pró-Álcool, meu pai levou um motor de demonstração na Globo para uma reportagem. Hoje não pode mais fazer isso, mas ele levou a minha mãe e eu. Ficamos lá vendo os artistas passarem.

Então, embora meu pai não tenha me incentivado, ele me proporcionou memórias muito alegres e marcantes desse ambiente.

Em 1978, quando eu tinha 7 anos, foi inaugurado o campo de provas da Ford. Em uma das primeiras visitas, meu pai levou a gente para conhecer. Ele começaria a trabalhar lá. Depois, quando eu já trabalhava na Ford, o Manuel Yonamine me ligava e não me tratava como Carla, ele falava: Cacá, o caminhão não está subindo a rampa.

Eu acabei me tornando colega de trabalho dos amigos do meu pai. Eu trabalhei com aquelas pessoas que me conheceram com 7 anos!

SB: Nossa, quanta história! E aí chegou o momento de escolher a opção do vestibular?

CG: No mural do cursinho tinha a lista de profissões e eu fui descartando uma por uma: direito (nem pensar!), medicina (não, isso não é para mim!), engenharia (hum, é isso que eu quero fazer!). Fui lá e preenchi a ficha. Então, as outras opções nunca foram uma opção. A engenharia sempre foi muito clara para mim.

SB: E o que os seus pais acharam da sua escolha?

CG: Olha, eu acho que eles pensaram que não iria dar muito certo não. Entrei na FEI e, no começo, foi bem complicado para mim. Eu não tinha noção de como teria que me dedicar aos estudos e segui fazendo minhas outras atividades normalmente. Fazia natação e treinava muitas vezes durante a semana. Então, no primeiro ano, fui muito mal.

Nesse mesmo período, meus pais se separaram. Foi um período bem turbulento, com muitas mudanças. Minha mãe e eu ficamos morando em uma casa enorme, e a parte de manutenção ficou por minha conta, como trocar telha e o sifão da pia. 

Financeiramente também ficamos em uma situação muito ruim. Minha mãe pagava a faculdade com sacrifício. Eu não tinha dinheiro para comprar um par de tênis. Toda essa situação me incomodava muito.

Comecei a namorar o Rogério, hoje meu marido. Estudávamos na mesma sala, e ele era muito estudioso. Passei a estudar com ele e a me sair melhor nas avaliações.

O professor Rosário, sabendo das dificuldades que eu passava, me convidou para dar aulas particulares para alunos de colégio. Assim, passei a ter uma renda para pagar meu transporte para faculdade, fazer um lanche, comprar algo que eu precisasse.

Com meu esforço nos estudos, no sétimo ciclo, tive a honra de ganhar como melhor aluna da Mecânica e do oitavo ao décimo ciclo tive uma Bolsa de Estudo por mérito. Isso para mim foi muito gratificante, porque percebi que poderia ser autossuficiente.

Em seguida, ganhei o Prêmio Mitutoyo, dado aos melhores alunos de Mecânica. Tenho até hoje o prêmio, que é um paquímetro.

Depois, o jornal Estadão entrou em contato com a FEI e pediu indicação de uma aluna para uma matéria sobre as mulheres que estavam se destacando na engenharia mecânica. Porque, apesar da grande maioria dos alunos serem homens, as mulheres eram quem conseguiam a maioria das bolsas de estudos ofertadas.

A faculdade me indicou e a matéria saiu em um domingo de homenagem ao Dia Internacional das Mulheres.  Lembro da minha mãe comprando o jornal e, quando olhamos, era meia-página com a matéria e ¼ era com uma foto minha. Nossa, eu fiquei muito feliz. Naquele dia eu percebi que era muito capaz, que a minha autonomia dependia de mim.

No dia seguinte, chegando à FEI, me passaram o recado de uma pessoa que queria falar comigo. Quando liguei, era o diretor da empresa Cummins me pedindo para ir fazer uma entrevista. Foi assim que consegui meu primeiro estágio.

SB: Você era a única mulher na sua sala de aula?

CG: Depois que entrei no profissionalizante, era eu e a Cláudia, minha amiga. Nossa sala tinha mais ou menos 60 alunos, mas só nós mulheres. Logo ela se mudou para Austrália, e eu segui sendo a única.

SB: E como foi ser a única mulher na sala? Alguma dificuldade?

CG: Não. Na verdade, eu tinha algumas regalias. Como me dedicava muito em fazer as anotações das aulas, meu caderno virou fonte de consulta. Eu deixava uma cópia na copiadora ao lado da faculdade e todos da sala pegavam lá. Então, eles me tratavam muito bem. Até hoje, quando a gente se encontra nos churrascos, eles falam: Ah, o caderno da Carla salvava a gente! 

Tive um professor na FEI que dava aula de Máquinas Agrícolas. Ele quase não escrevia no quadro e sua letra era muito difícil de entender. Além disso, também era difícil compreender o que ele falava. Naquela época não tinha como gravar aula. Hoje, certamente seria mais fácil encontrar uma solução.

Notei que ele sempre tinha em mãos um papel onde tinha todos os lembretes da aula anotados. Resolvi perguntar se ele me emprestava aquelas anotações para eu devolver na aula seguinte, e ele concordou. Foi a salvação.

Eu tinha um computador XP386, que era bem antigo e comprado a duras penas. Chamei minha mãe, que trabalhava com um médico, para me ajudar a decifrar a letra e digitei tudo. No final, acabei fazendo uma apostila da matéria que também ficou lá na copiadora e os alunos das turmas que vieram depois acabaram utilizando para acompanhar também as aulas.

SB: E como foi no profissional?

CG: Aí sim já tive algumas questões. Na faculdade é cartesiano: a nota que você tira na prova comprova o que você sabe, mas no trabalho tem também uma avaliação subjetiva. Eu precisava, por exemplo, falar e repetir muitas vezes algo para ter credibilidade, enquanto meus colegas homens diziam uma vez e já era aceito. 

Os próprios colegas percebiam isso. Eles mesmos vinham me falar o quanto eu tinha que me impor em várias ocasiões para provar que o que eu estava falando era o correto, o que tinha que ser feito.

Viajei muito sozinha para outros países, como China e Itália. Aprendi que para minha segurança e para facilitar minha entrada nesses países, era bom ter uma carta da empresa explicando que eu era funcionária, que estava indo para tal lugar, com tal objetivo, porque uma mulher sozinha, querendo entrar em outro país, gerava uma ideia duvidosa nas alfândegas.

Eu também tomava cuidado em não beber em jantares empresariais, voltava cedo para o hotel e negava também alguns programas por não saber ao certo como seriam. Eu era a única mulher nessas ocasiões na grande maioria das vezes, então achava necessário ter esses cuidados.

Uma vez fui para Seul e, quando eu me apresentei para o engenheiro com quem eu iria tratar, ele começou a dar risada. Ele disse: Você é mulher? Era com você com quem eu estava falando por e-mail o tempo todo? E continuou rindo, de forma muito irônica.

Eu disse para ele: Por quê? Qual o seu problema? Você está com medo de tratar comigo? Porque se você não tem capacidade de tratar comigo, não tem problema. Eu converso com o seu chefe.

E foi isso que eu fiz. Entrei e conversei direto com o superior dele. Expliquei o que tinha acontecido e ele foi retirado do projeto. Depois eu disse a ele: É melhor ir se acostumando, porque eu sou a primeira de muitas com quem você vai ter que tratar.

Então, com certeza o desafio de ser uma mulher engenheira foi no campo profissional. Fui aprendendo a lidar com essas situações. Algumas me posicionando, outras fingindo que não estava entendendo a conversa, o assédio, para me preservar de uma situação mais séria.

SB: Foi um aprendizado e tanto. Comente!

CG: Foi mesmo. Sempre entendi que todos devem ser tratados com respeito, independente de posição ou de gênero. É dessa forma que eu trato a todos e é dessa forma que sou tratada, claro, com algumas exceções.

Mas não me arrependo de nada. Tem duas coisas que eu falo que faria de novo: cursar engenharia e me casar com o Rogério. Ah! Esqueci de falar: nós nos casamos na capela da FEI!

SB: Teve algum momento na carreira que considera que foi bem desafiador?

CG: Quando fui promovida à Executiva. Foi bem desafiador, porque não gostei de ser gerente. Não gostei de ficar cuidando do desempenho, das férias das pessoas. Gosto de cuidar do motor, gosto da engenharia. Gosto de conviver com as pessoas, não de cuidar delas.

Se for preciso organizar um workshop faço com a maior alegria, porque faz parte da minha profissão. Então, apesar dos funcionários terem gostado de me ter como gerente, acho que falhei nessa tarefa por não ser a minha vocação.

Outro momento que considero que também foi um grande desafio, e nesse considero que fui bem-sucedida, foi na Ford, com a instalação do motor Ford Cargo, na época do P7.

Quando vi o tamanho do meu desafio, fui chorar no banheiro pensando que não iria dar conta. Fiquei com medo. Naquela época, eu achava que não podia falar: eu não sei fazer isso.

Hoje eu sei que não preciso resolver tudo sozinha, que tem o time ali para compartilhar e ajudar. E tenho orgulho de dizer que esse projeto teve uma quantidade baixa de falhas e tivemos um bom resultado.

SB: Você se lembra de quando conheceu a SAE BRASIL?

CG: Foi na faculdade, vi um cartaz no mural divulgando o Congresso, achei muito interessante e já me inscrevi. Acredito que foi entre 1993 e 1994. Sou associada desde 1995.

Desde então, só não participei de dois Congressos da SAE BRASIL, porque eu estava de licença maternidade e amamentando meus filhos. Meu primeiro filho Henrique, que nasceu prematuro em julho e exigia cuidados a mais, e meu segundo filho Leonardo, que nasceu no final de outubro, bem no período do Congresso.

SB: Como é conciliar a carreira com a maternidade?

CG: A gente realmente tem que se virar. Levei meu filho Henrique para a apresentação do meu projeto de pós-graduação para amamentá-lo nos intervalos. Temos que ir encontrando modos de fazermos as coisas.

Mas tenho muito suporte, muito mesmo. Do meu marido e dos meus sogros. Já precisei passar alguns períodos na China e no Chile, e meus filhos ainda eram pequenos. Teve momentos de eu me sentir culpada por estar longe deles, até porque naquele tempo não era tão fácil a comunicação. Para conseguir falar com eles tinham todo um esquema de horários e lugares para eu estar.

E o contrário também aconteceu. Quando meu marido precisou viajar, assumi o barco sozinha. Somos bem parceiros, assim conseguimos dar conta.

SB: E o que você achou do primeiro Congresso SAE BRASIL que participou?

CG: Fiquei com um pouco de vergonha de estar no meio de todos aqueles homens engravatados. Me senti muito criança diante deles. Mas hoje, como o Cleber Gomes brinca, quando vou aos eventos da SAE BRASIL, estou sempre acenando, cumprimentando alguém, porque realmente fiz um grande networking participando desses eventos.

Então, eu aproveitava muito o benefício que os estudantes tinham durante o Congresso e assistia tudo o que eu podia. E tinha sempre o cuidado de manter a minha anuidade em dia para não perder nada.

Depois de formada, pelo menos em dois dias do evento eu tinha que ir. Então, fazia banco de horas para poder utilizar nesse período. Eu costumava marcar no programa do Congresso todas as apresentações técnicas e palestras que eu queria ver e ia seguindo ali religiosamente para não escapar nada.

Então, no dia de Congresso, sempre era uma alegria enorme. Era um momento para aprendizado, para networking, para conseguir um contato para ajudar em alguma peça que eu estava desenvolvendo. Realmente a SAE BRASIL faz parte da minha carreira.

SB: Você também teve papers técnicos publicados em alguns Congressos. Fale sobre eles.

CG: Sim, tive dois e um deles eu apresentei. Eu estava trabalhando na Ford e foi muito legal, porque na sala estava meu chefe e colegas de departamento. Fiquei muito feliz e muito nervosa também.

O Cleber, mais uma vez ele, que considero como um irmão, me falou: Carla, quem conhece esse paper mais que você? Eu respondi: Ninguém. Então, ele disse: você está com medo de quê? Respondi: Você tem razão.

Ele me deu uma confiança tão grande que na hora eu já me senti mais segura para fazer a apresentação. E foi mais um grande momento para mim!

SB: Como é sua participação como voluntária da SAE BRASIL?

CG: Costumo contribuir nas avaliações dos papers técnicos e dos trabalhos estudantis. Faço sempre que me é possível, e fico muito feliz quando sou convidada. Quando não posso participar por conta da carga do meu trabalho, sinto falta.

Espero sempre poder contribuir à altura que a SAE BRASIL merece, sendo a grande instituição que é. Faço sempre com muita alegria!

SB: E para encerrar: o que ainda te empolga na profissão?

CG: Tudo. Quando anunciaram, por conta da pandemia, o retorno gradual à fábrica, eu comemorei: Oba. Vamos voltar para a fábrica! Então, quando é o dia de ir para lá, já acordo animada. Respondo as mensagens matinais de WhatsApp de pai, sogros e amigos com um “Bom dia. Hoje estou na fábrica!”.