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Desvendando a mobilidade humana na Chapada Diamantina

7 de jun

A Chapada Diamantina é um dos maiores destinos turísticos do Brasil. Mas será que esse título ajudou na mobilidade das pessoas?

Na primeira expedição do Observatório da Mobilidade da SAE BRASIL buscamos entender as dinâmicas do transporte dos turistas e moradores das comunidades locais.

A região da Chapada Diamantina ocupa uma grande área no interior do estado da Bahia, tendo o turismo e a agroindústria como principais pilares econômicos. A mobilidade por lá se caracteriza pelas grandes distâncias que precisam ser percorridas, dificuldades de acesso à zona rural e falta de transporte público e intermunicipal.

Chapada Diamantina: a região

O Parque Nacional da Chapada Diamantina é considerado um dos destinos turísticos mais bonitos do Brasil e uma parada obrigatória para quem gosta de turismo de aventura.

A região é formada por 24 municípios, com extensão de quase 40 mil km² e centenas de atrativos naturais como rios, cachoeiras, grutas e vales. 

Pontos turísticos como o Morro do Pai Inácio e as Cachoeiras da Fumaça e do Buracão, atraem visitantes do mundo inteiro para conhecer suas belezas que tem como identidade a intervenção do garimpo na natureza. Os principais municípios que compõem a atividade turística são: Lençóis, Palmeiras, Andaraí (com a Vila de Igatú), Mucugê e Ibicoara.

Além do turismo, a agricultura também prevalece como atividade econômica da região, com destaque para o café e a batata inglesa. Devido a grande dimensão do território da Chapada Diamantina, o transporte de cargas e de pessoas é um dos principais desafios enfrentados na região. 

Para os turistas, as grandes distâncias existentes entre as principais belezas naturais e as cidades exigem disposição e uma boa dose de planejamento. Já para os moradores, o maior desafio se torna a mobilidade funcional entre o campo e a cidade.

Um corredor turístico nada conectado

A porta de entrada para quem quer conhecer a Chapada Diamantina é a cidade de Lençóis. Partindo de Salvador, é possível chegar de avião (serviço paralisado devido à pandemia), carro ou de ônibus, em uma viagem de quase 8 horas. A partir de Lençóis todos os outros deslocamentos se tornam bem mais complicados.

A jornada do Observatório pela Chapada Diamantina se concentrou no corredor da rodovia BA-142, que liga alguns dos municípios turísticos da região como: Lençóis (A), Andaraí (B), Mucugê (C) e Ibicoara (F).

Esse corredor concentra a maior parte dos atrativos turísticos, visitado anualmente por milhares de pessoas. Apesar disso, não existem ônibus ou transporte público que conectem essas cidades. Para visitar os pontos de interesse com liberdade, o ideal é alugar um carro. As principais formas de deslocamento na Chapada são:

  • Carro alugado (em Salvador ou locadoras locais pequenas e informais)
  • Táxis e transportes turísticos inclusos nos passeios
  • Carona
  • Fretados privativos conhecidos pelos moradores (vans e caminhonetes)

Com tantas dificuldades de locomoção, a maioria dos turistas escolhe Lençóis como a sua única base, percorrendo trajetos de mais de 500 km em um dia para chegar nas cachoeiras da Fumacinha e do Buracão. Isso faz com que grande parte da renda e do desenvolvimento trazido pelo turismo se concentre nessa cidade.

Adicionalmente, essa falta de integração não interfere apenas na vida do turista,  impacta também a qualidade de vida e o desenvolvimento econômico da região. Fora das rotas principais asfaltadas, caminhões, moradores e turistas transitam por longos trechos de estrada de terra, sem qualquer estrutura, sinalização, postos de serviço ou conexão de internet. 

Transporte pendular é oportunidade no meio rural

A Chapada Diamantina é circundada pela BA-142 e BA-245, que se conectam com estradas escoadoras de produção como a BR-242. Atualmente, essas estradas apresentam condições adequadas de asfalto, apesar de terem pista simples na maior parte da extensão.

Muitos distritos e vilas rurais foram criados através da exploração agrícola da região. Por exemplo, Mucugê é o segundo maior município produtor de batata-inglesa do Brasil e Ibicoara, o sétimo. Essa produção está concentrada em algumas grandes empresas, que geram cerca de 5.000 empregos. 

Enquanto as sedes e os funcionários da área administrativa das empresas se localizam em Mucugê, a grande maioria dos trabalhadores reside em Cascavel. Cascavel é um distrito de Ibicoara e foi escolhido pelas grandes empresas produtoras de batata como base para o transporte dos funcionários entre suas fábricas e campos.

Campos de batata na Chapada Diamantina
Ônibus de transporte de funcionários

Embora as empresas e o transporte coletivo pendular prestem um importante serviço, a mobilidade dos moradores das vilas e bairros rurais é extremamente dependente do veículo individual

Em muitos desses distritos, moradores locais transformam seus pequenos caminhões de carga em coletivos, colocando cadeiras de praia para oferecer um transporte semanal de passageiros (seria predecessor do carsharing?). 

O evento mais importante da semana é a feira, onde vários motoristas desses pequenos povoados aproveitam a oportunidade para oferecer “carona” nas suas caminhonetes para outros moradores. Ter o carro próprio para essas famílias é um desejo de liberdade e autonomia, muitas vezes distante de ser conquistado.

Caminhão em dia de feira

Mucugê: inspiração para acessibilidade

Visitando as várias cidades, o contraste de riqueza e desenvolvimento fica evidenciado. Mucugê é o município mais rico da região, com o maior PIB per capita. É uma das cidades mais antigas da Chapada Diamantina, onde foram descobertos os primeiros diamantes da região. 

Tombada na década de 1980 como Patrimônio Histórico Nacional, ainda preserva o casario de estilo colonial e o único cemitério bizantino do Brasil. Suas ruas são limpas, arborizadas e suas praças floridas.

A cidade também chama a atenção pelas intervenções de acessibilidade, que foram implementadas após um projeto aprovado em 2017. Em geral, quando utilizamos o termo “cidades históricas”, costumamos pensar nas calçadas estreitas e ruas de pedras que dificultam a locomoção de pessoas com mobilidade reduzida. Em grande parte do município de Mucugê, rampas de acesso foram incorporadas, sem perder o charme da cidade tombada. As calçadas apresentam tamanho adequado para a circulação de cadeirantes. Na principal avenida, as árvores estão plantadas na rua, integradas ao espaço de estacionamento.

Esse é um exemplo interessante de como gerar acessibilidade integrando mobilidade urbana e arborização.

Integração para o futuro

Certamente a Chapada Diamantina ainda apresenta desafios básicos em relação à mobilidade humana. Com um território tão grande, falta uma articulação regionalizada, que centralize recursos e interesses focados nas comunidades da região. A carência de infraestrutura e integração regional impacta diretamente o acesso a oportunidades e desenvolvimento econômico. 

As soluções para a maior parte desses desafios são complexas e precisam de integração entre os diversos setores da sociedade, como governos e empresas. 

No entanto, algumas tecnologias e ideias existentes já poderiam ser adaptadas para entregar uma melhor mobilidade às comunidades. Por exemplo:

  • Criação de um corredor de turismo, com rede de ônibus intermunicipal que distribua os turistas para além da cidade de Lençóis
  • Utilização do car sharing na matriz intermunicipal, utilizando o fluxo de turista para redistribuir os carros 
  • Subvenção e organização dos motoristas que possuam veículos próprios para atender como transporte público até mesmo a população mais carente 
  • Ampliação da frota rural e transporte escolar para além do transporte pendular

Através de um olhar diferenciado para regiões como a Chapada Diamantina, podemos debater propostas e pensar em soluções para esses desafios. O Observatório da Mobilidade é uma das iniciativas da SAE Brasil para conectar especialistas com essas realidades.

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