
19 de nov
A transição energética consolidou-se como um dos temas mais populares – e necessários – da engenharia, política industrial e do debate corporativo global. Mas podemos afirmar que essa transformação, de fato, já começou no Brasil?
A Pesquisa de Percepção da Transição Energética, realizada pela SAE BRASIL com perfil majoritariamente técnico, de áreas como engenharia, setor automotivo e energia, revela um retrato inédito que aponta para um descompasso entre a alta intenção e a ação efetiva.
O estudo lança luz sobre o desafio central que impede o avanço da agenda de descarbonização: a prevalência do fator econômico sobre o ambiental nas decisões cotidianas, indicando que a transição, para se concretizar, precisa ser traduzida em viabilidade de custo.
Continue lendo para acessar insights da pesquisa em primeira mão e saber os caminhos mais efetivos para tornar realidade a transição energética no país.
A consciência sobre a gravidade do tema da transição energética é inegável e consistente. O alinhamento entre as esferas pessoal e profissional é claro: 68% dos participantes da pesquisa classificam a transição energética como “Urgente” ou “Muito urgente”.
Para um público tão informado (73% dos respondentes se declararam com conhecimento moderado a elevado) essa percepção de urgência deveria impulsionar escolhas sustentáveis.
No entanto, quando a percepção encontra a prática, o cenário muda radicalmente. Os critérios profissionais de decisão para mobilidade, transportes e logística são fortemente guiados por fatores financeiros.
O custo necessário foi o fator mais determinante, citado por 67% dos respondentes, seguido por desempenho e autonomia (44%) e disponibilidade do combustível (41%). O fator impacto ambiental aparece apenas como o quarto fator de decisão (39%).
Esse quadro revela que, mesmo no ambiente corporativo e técnico, onde a sustentabilidade é pauta estratégica, a lógica da economia tradicional, ou seja, dependente de fontes fósseis de energia, ainda prevalece no processo decisório.
O reflexo desse dilema é visível no uso pessoal: embora os veículos flex representem 57% da frota dos respondentes, 43% dos proprietários que têm a opção de etanol optam pelo combustível fóssil, a gasolina, por razões estritamente econômicas. O preço é o critério decisivo para quase um quarto dos respondentes no momento do abastecimento.
O estudo reitera que a transição energética brasileira segue uma rota singular, distinta das ênfases globais em eletrificação e hidrogênio.
O Brasil se destaca pela preferência consolidada por biocombustíveis (como etanol, biodiesel e HVO), que são vistos como as soluções mais viáveis e imediatas para a descarbonização, sobretudo no transporte pesado.
Essa preferência reflete a maturidade da cadeia produtiva e a infraestrutura já consolidada no país. Enquanto soluções como veículos elétricos a bateria (BEV) e hidrogênio verde recebem maior ênfase global, elas ainda enfrentam barreiras de infraestrutura e custo no mercado nacional.
A aposta nos biocombustíveis é, portanto, a forma encontrada pelo país de conciliar inovação, sustentabilidade e viabilidade prática.
Existe uma forte aspiração coletiva de que o Brasil assuma um papel de liderança global na transição energética, visão compartilhada por 59% dos respondentes. Contudo, essa aspiração encontra um obstáculo na execução.
Há a percepção de que a atuação prática do país e das empresas ainda é desigual e reativa, indicando uma necessidade de transformar essa ambição em ações e políticas concretas.
As barreiras para essa transformação são, em sua essência, estruturais e econômicas. O custo e a necessidade de investimentos lideram as limitações concretas, citadas por 23% dos respondentes.
Os interesses políticos (6%) e as limitações de infraestrutura/logística (6%) também são apontados como entraves relevantes.
Para que a transição energética ganhe o ritmo e a profundidade necessários, o mercado deve reagir aos dados da pesquisa adotando estratégias focadas na viabilidade econômica e na previsibilidade.
O mercado não pode mais focar apenas na narrativa ambiental. É crucial desenvolver e comunicar estratégias que conectem custo a valor. Isso significa demonstrar benefícios tangíveis que justifiquem o investimento, como performance, disponibilidade e segurança de abastecimento.
Além disso, para destravar investimentos e acelerar a escala das soluções de baixo carbono, é imperativo que políticas públicas e coordenação regulatória garantam a previsibilidade e ofereçam incentivos bem calibrados. Esse alinhamento é fundamental para que a ambição de liderança se materialize em execução.
O foco nos biocombustíveis também não pode ser ignorado. Dada a preferência nacional e a infraestrutura já existente, o mercado deve priorizar o uso de biocombustíveis como o caminho mais imediato para a descarbonização.
Projetos âncora e intermodalidade podem ser alavancados para ampliar o uso desses combustíveis em segmentos onde a viabilidade técnica já existe, como o transporte de cargas.
A transição energética no Brasil não é apenas uma questão de vontade ou tecnologia, é um desafio pragmático de engenharia econômica.
A pesquisa da SAE BRASIL atua como um termômetro que mede a diferença entre o desejo de um futuro sustentável e a realidade do fator financeiro que, hoje, dita o passo das nossas escolhas.
Transformar a percepção em ação exige, portanto, soluções que sejam verdes no impacto e viáveis no preço.
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