
10 de set
As discussões em torno da pauta da descarbonização do setor de transporte rodoviário na Europa afetam diretamente os contornos das decisões e caminhos da transição energética no Brasil – país que abriga muitas das principais subsidiarias desta indústria.
No papel de acompanhar o tema e colocar luz no debate, a SAE BRASIL, a Casa do Conhecimento da Mobilidade Brasileira, se manifesta em relação aos movimentos da Indústria em solo europeu e suas consequências para nossa região. Formuladora de um dos mais ambiciosos marcos regulatórios para descarbonização do transporte rodoviário, a União Europeia, por meio da estratégia “Fit for 55”, tem como objetivo reduzir as emissões líquidas de gases de efeito estufa em pelo menos 55% até 2030, tendo como horizonte a neutralidade climática em 2050. Para isso, a Comissão Europeia determina que, a partir de 2035, apenas veículos tidos como “zero emissão” poderão ser registrados como novos. Essa decisão, fundamentada em metas rígidas e monitoramento obrigatório de emissões, representa uma mudança profunda na indústria automotiva global.
No entanto, diante dos desafios industriais e geopolíticos, a própria Comissão Europeia tem promovido flexibilizações importantes. Uma das principais foi a aprovação, em 2025, da possibilidade de cumprimento das metas de emissões por média trienal entre 2025 e 2027, trazendo maior previsibilidade para os fabricantes, além da possibilidade de registro de veículos movidos exclusivamente por combustíveis neutros em carbono após 2035, mediante regulamentação futura. O diálogo estratégico permanece aberto, com revisão obrigatória das metas em 2026, reconhecendo a necessidade de adaptação diante dos avanços tecnológicos e dos impactos sociais e econômicos.
Até aqui, as exigências estabelecidas determinam uma alta probabilidade de banimento dos motores a combustão interna (ICEs) no mercado europeu. Caso essas metas sejam mantidas e implementadas conforme previsto, ou seja, a partir de 2035, motores convencionais deixarão de ser viáveis e não serão mais comercializados em veículos novos, restando apenas exceções para pequenos fabricantes e para motores que utilizem combustíveis certificados como neutros em carbono. Esse caminho de transição desafia países que construíram soluções regionais de baixo carbono, bem como modelos de negócios consolidados.
É o caso do Brasil, referência mundial em biocombustíveis, com programas como o Proálcool, o etanol e o biodiesel, que promovem inclusão produtiva, desenvolvimento rural e redução efetiva de emissões. Se o banimento dos motores a combustão for adotado de forma absoluta e se houver um direcionamento das matrizes europeias para que suas subsidiárias deixem de investir nesse tipo de motor, o país pode enfrentar barreiras tecnológicas e comerciais, além de perder espaço para suas alternativas sustentáveis.
O Brasil é reconhecido como um dos países com maior concentração de fábricas de diferentes marcas automotivas em um único território, reunindo montadoras de origens europeia, americana e asiática. Essa característica única no cenário global reforça a posição estratégica do país na cadeia mundial de mobilidade e evidencia a importância de políticas que valorizem soluções regionais de baixo carbono. Essas soluções apresentam pegada de carbono inferior até mesmo à dos veículos elétricos quando considerada a matriz elétrica europeia. Ampliar a divulgação desses benefícios é essencial para que a transição energética global seja guiada por critérios técnicos e socioambientais.
Aqui é fundamental compreender como é feita a definição europeia para ‘combustíveis certificados como neutros em carbono’. Nesta classificação os combustíveis devem ser produzidos a partir de hidrogênio verde e CO₂ capturado do ar ou de processos industriais. Exemplos incluem os chamados e-fuels (combustíveis sintéticos), biocombustíveis avançados e o próprio hidrogênio verde. Essa abordagem busca retirar o CO₂ da atmosfera para produzir o combustível. Trata-se de um processo de alto custo de produção, necessário para países com baixa produção agrícola e de biomassa.
No Brasil, o etanol e o biodiesel já apresentam ciclo de carbono fechado, e são reconhecidos internacionalmente por sua sustentabilidade, eficiência energética e impacto social positivo. A tecnologia flex-fuel, desenvolvida localmente, permite o uso de diferentes combustíveis renováveis, adaptando-se à realidade nacional e promovendo uma transição justa e inclusiva. “A transição energética precisa ser tão global quanto possível, mas tão regional quanto necessária para ser viável do ponto de vista ambiental, econômico e social”, destaca Camilo Adas, Conselheiro de Tecnologia e Transição Energética da SAE BRASIL.
Um fato novo, porém, chama atenção e mostra que a estratégia “Fit for 55” está sendo questionada pela própria indústria automotiva europeia. Em agosto de 2025, a ACEA e a CLEPA, principais entidades europeias do setor automotivo, publicaram uma carta conjunta pedindo que a Comissão Europeia revise das metas de CO₂ para 2030 e 2035, permitindo maior flexibilidade regulatória, inclusão de híbridos plug-in, motores a combustão altamente eficientes, hidrogênio e combustíveis descarbonizados. As entidades também defendem políticas mais ambiciosas de incentivo à demanda, revisão urgente dos padrões para caminhões e ônibus, reconhecimento dos esforços industriais na redução de emissões e medidas para evitar a desindustrialização e a perda de empregos.
A análise comparativa entre o regulamento europeu “Fit for 55”, o posicionamento das entidades ACEA/CLEPA e a perspectiva brasileira evidencia abordagens distintas para a descarbonização da mobilidade, conforme mostra a tabela abaixo.
| Aspecto | Fit for 55 (UE) | Pedido ACEA/CLEPA | Ótica Brasileira |
| Metas de CO₂ | Rígidas: -55% (2030), -100% (2035) | Recalibrar metas, flexibilidade | Reconhecer soluções regionais e biocombustíveis |
| Tecnologia | Neutra, foco em elétricos | Neutra, incluir híbridos, ICE, H₂, efuels | Flex-fuel, etanol, biodiesel, híbridos regionais |
| Incentivos | Infraestrutura e ZLEV | Incentivos de demanda, subsídios | Políticas de inclusão produtiva e socia |
| Híbridos plug-in | Utility factor pode ser restringido | Manter utility factor flexível | Híbridos flex-fuel adaptados à realidade local |
| Caminhões/ônibus | Revisão só em 2027 | Revisão imediata | Biodiesel e renováveis para transporte pesado |
| Ciclo de vida (LCA) | Estudo em andamento | Considerar esforços industriais e LCA | LCA positivo dos biocombustíveis brasileiros, fortalecendo o conceito ‘Do Poço a Roda’ |
| Emprego/indústria | Preocupação reconhecida | Medidas para evitar desindustrialização | Geração de emprego rural e industrial |
Em um momento decisivo, no qual a indústria automotiva europeia discute a revisão de metas e a flexibilização de estratégias para a transição energética, a SAE BRASIL reafirma seu compromisso com uma transição energética justa, tecnicamente fundamentada e regionalmente adaptada. Acreditamos que o reconhecimento da pluralidade tecnológica fortalece os objetivos globais de descarbonização – seremos tanto mais bem-sucedidos quanto mais soubermos integrar e valorizar a diversidade de soluções que cada região tem a oferecer. O Brasil é um exemplo dessa pluralidade e a SAE BRASIL convida a todos a fortalecerem essa posição.
SAE BRASIL é uma sociedade civil sem fins lucrativos, composta por pessoas físicas e jurídicas dedicadas à engenharia da mobilidade. Fundada em 1991 e afiliada à SAE International, atua nacionalmente como “Casa do Conhecimento da Mobilidade Brasileira”, promovendo eventos, cursos e iniciativas que fomentam inovação, educação tecnológica e sustentabilidade em todos os setores da mobilidade. A associação reúne profissionais, estudantes e empresas, incentivando o desenvolvimento técnico, humano e a troca de experiências. Todos os recursos são aplicados exclusivamente em suas atividades institucionais, sem distribuição de lucros ou remuneração a dirigentes.